sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O brasileiro, ele não existe

Uma reflexão que me tem levado ao estudo e conversas de um tempo para cá é sobre a psicanálise no Brasil. Não acho que seja um tema fácil, e é também pouco explorado.  Talvez por isso ele me pareça inesgotável na medida em que, quanto mais penso nele, menos conclusões tiro, e mais perguntas surgem.

Mas uma conclusão já podemos tirar de imediato: tendo sido estudante de psicologia e não ter tido uma aula que fosse, ou textos que abordassem o tema da citada “terapia” e sua inserção na idiossincrática cultura brasileira já diz muito: há uma falta de interesse,  ou talvez mais que isso! Há uma ignorância geral no que se refere à prática psicanalítica no  nosso querido país Brasil.

Por exemplo, não se discute de forma situada os conceitos  básicos da teoria psicanalítica e sua relação direta com nossa cultura, nossas representações e construções identitárias; não se discute a neurose a partir de uma perspectiva baseada no nosso tipo específico de processo civilizatório.

O sociólogo Norbert Elias, fortemente influenciado por Freud, aborda a sublimação como um fenômeno intrínseco do processo civilizatório a partir do livro “A Busca da Excitação”. Elias buscou entender a sociedade inglesa do século XVIII através do estudo do esporte, colocando em relação evidente e indissociável elementos como estrutura de personalidade,  estrutura de poder e estrutura da sociedade em geral. Sendo assim, para Elias, havia uma configuração (termo utilizado para evitar a ideia de que pessoas e sociedades são substancialmente diferentes) social que estruturava um novo modelo social de conduta e sensibilidade (inclusive a forma de satisfação libidinal dos indivíduos). É importante notar que no pensamento de Elias não se explicam aspectos sociais em termos de ideias de indivíduos, mas sim de desenvolvimento social.

Se um sociólogo utilizou a teoria freudiana como uma ferramenta para a compreensão de  uma determinada sociedade, por que, aqui no Brasil, essa mesma teoria se apresenta a nós de forma substancializada, descolada da nossa estrutura de poder,  estrutura de personalidade, e estrutura social em geral?



É muito comum ouvirmos num simpósio de psicanálise mesas que viriam a discutir temas com nomes quase que misteriosos, imponentes, complexos e extremamente eruditos. Fala-se do “feminino e o não-todo-fálico”. Mas se conhece a mulher brasileira? Fala-se da “questão do valor”. Mas se sabe qual a renda salarial média do trabalhador brasileiro? Ou o que os brasileiros mais valorizam culturalmente? Fala-se sobre as “inibições, depressões, angústia”. Mas se conhece o que angustia especificamente os brasileiros? Fala-se da “arte na obra de Joyce como criação a partir do Real”. Mas se conhece Macunaíma? Por que estudamos a neurose obsessiva através de Hamlet e não através de Quincas Borba? Por que não se fala do gozo a partir de Hilda Hilst? Por que não se fala do simbólico através dos filmes de Cacá Diegues?


Ou seja, se ignora aquilo que de fato se ignora. Mas por que se ignora? Mais e mais perguntas...

Será que as teorias europeias chegam até nós automaticamente legitimadas pela sua procedência? Será que nossa relação com a teoria psicanalítica não é sintoma de uma sociedade com resquícios coloniais?

Como furar esse grande Outro colonizador para finalmente o sujeito brasileiro emergir?

É óbvio que a psicanálise é uma teoria ocidental fundamental de ser compreendida por qualquer estudante de humanas. Mas minha questão não é essa.


Será que lendo Lacan não acabamos conhecendo mais os parisienses que os cariocas?

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