Gostaria de fazer comentários extras
ao texto anterior da Carmen.
É sempre muito difícil um homem escrever e dar
opiniões (e publicizá-las) a respeito do debate de gênero, mais especificamente
do feminismo. Feminismo é um movimento social de mulheres e ele foi, é e
será, por um longo tempo ainda, um movimento social fundamental, ainda mais na sociedade
brasileira, onde ele ainda tem muita estrada.
Hoje, Eduardo Cunha se tornou um alvo desse
movimento. Por causa de seu reinado na Câmara e das pautas religiosas de sua
gestão as feministas querem seu pescoço na guilhotina. Esse conflito me agrada,
pois o movimento feminista querer a derrubada de um presidente da câmara pode
levar a uma reflexão interessante no espectro geral da problemática de gênero:
a sub-representação política da mulher.
Se olharmos bem hoje, temos uma mulher na presidência da República que
ganhou há um ano as eleições e não tem tido condições de implementar sua gestão
ao conjunto da sociedade. Se olharmos com mais atenção ainda os que impendem
que ela governe, são todos homens e seu líder maior é (TCHARAM!) Eduardo Cunha.
É ele quem, na posse da câmara, cria as condições perfeitas para bloquear a
iniciativa presidencial. Sendo assim nada melhor que um movimento de mulheres
para pará-lo.
Porém, aaai porém, não foi o fato dele
chantagear o governo liderado por uma mulher que levou as mulheres às ruas para
tirá-lo de lá. O estopim se deu no momento em que a câmara resolveu endurecer na
criminalização do aborto estendendo seus braços às pílulas do dia seguinte.
Esse fato me chama atenção e revela como ultimamente caminha no Brasil o
feminismo (aspecto mais notável nas feministas mais jovens da atual geração) :
que é o feminismo e as feministas se radicalizarem em relação aos costumes.
As primeiras organizações feministas
surgiram do chão da fábrica e somente mais tarde o feminismo ganha projeção na
arte e na intelectualidade. Na década de 60 ele explode nos costumes e na
revolução sexual. Hoje me parece, pelo convívio e debate com feministas, que a
faceta dos costumes tem muito apelo nas mais jovens. De uns anos pra cá, a
discussão de gênero vem tomando espaço e, quando se começa um debate, ele não pára.
Nas universidades surgem a cada dia
expressões cada vez mais radicalizadas do tema, e o foco nos costumes atinge a
todos. Ninguém mais fica alheio ao debate dos costumes e a conduta de homens e
mulheres está cada dia mais vigiada e moralizada. Estou defendendo a tese de
que esse novo feminismo expressa uma visão moral de mundo, pois estipula com
clareza modos de condutas, ideais, regras e punições. O pode e não pode, o deve
e não deve, o certo e o errado ganha terreno na cultura brasileira. Não sei as
causas da radicalização nos costumes, e não estou preocupado aqui em achar bom
ou ruim, mas a radicalização de um lado certamente acompanha a do outro.
Setores religiosos, principalmente no meio evangélico também sobem o tom na
vigilância moralista. Pode ser um movimento reacionário preocupado com o que
vai ser da instituição família e na sua perpetuação baseada na milenar
monogamia ocidental e cristã. Mas de fato seu rebanho está cada vez mais unido
na missão de salvar a humanidade das pregações das “bruxas”. Aliás, alguns teóricos
defendem a tese de que nossa dita civilização ocidental começa logo após a caça
as bruxas na Europa.Outro fenômeno contemporâneo a esse surgimento
é o da reforma protestante que acaba se desaguando naquilo que Weber tão bem
falou que é o puritanismo.
O puritanismo foi uma versão mais radical do
calvinismo que surgiu na Inglaterra e que se desenvolveu mais largamente na
cultura americana. Baseado na doutrina calvinista da predestinação e da vocação
ao trabalho, tal doutrina defendia uma vida apegada a fé e ao trabalho sem tréguas.
Promovia uma conduta moral rígida onde o homem não deveria sair da linha - era
trabalhar e rezar. Em contrapartida sexo, bebida e outros prazeres passaram a
ser a linguagem do diabo e o mal não seria mais tolerado - deveria então ser
extirpado. Bom, para a sociedade inglesa os puritanos incomodaram muito e não é
a toa que eles foram expulsos de lá. Invadiram a Nova Inglaterra e foram protagonistas
na construção dos EUA. Os EUA viraram potência econômica graças em parte aos
dedicados puritanos e também potência cultural, exportando sua cultura para o
mundo inteiro.
A grande contribuição intelectual de Max
Weber foi mostrar que a grande herança do puritanismo na cultura mundial não
estaria nos conteúdos religiosos neles mesmos, mas em uma forma, ou tipo de
conduta de vida. Melhor dizendo, saiu a fé cristã na salvação e ficou uma
conduta diária de não tolerar desvios quaisquer que sejam na moralidade
assumida. Bem diferentes foram nossas matrizes culturais Ibéricas e católicas
do perdão e da convivência mais compreensiva com os pecados e perversões. Como
se vê, já virou caricatura a malandragem, o jeitinho, a preguiça, as mulheres
nuas no carnaval, o falso moralismo etc. E, por mais que seja grave quem diga
que não há racismo no Brasil, de certo houve mais tolerância com as práticas
culturais dos negros, algo mais fácil de
notar, já que a musicalidade negra brasileira surgiu do terreiro e nos EUA da
música gospel. Aqui divindades africanas sobreviveram na linguagem dos santos enquanto
que nos EUA só poderiam ser simbolizados na figura do diabo. Isso tudo, porém, não significa que a solução
daqui é melhor que as de lá. No Brasil, quando as coisas avançam ou mudam é
sempre muito lento. Enquanto os países vizinhos criavam repúblicas, o filho do
rei de Portugal bradava independência como imperador. Fomos o último país a
abolir a escravidão e criamos uma nação rica, mas muitíssima desigual. A
lentidão irrita os que querem se ver livres das injustiças que julgam
inaceitáveis. Porém, nota-se que a lentidão continua como via.
E o que tudo isso tem a ver com o
feminismo? Acho que não é algo que se restringe ao feminismo, mas tenho uma
percepção - ainda não muito bem construída - de que o debate público brasileiro,
em várias esferas, tem sido tomado de performances puritanas . E as causas?
Seria a hegemonia cultural americana? Ou a eficácia do modelo na resolução dos
conflitos? Se existem radicalizações e reações, elas são eivadas de
puritanismo. As tônicas dos debates hoje não são uma gradual resolução de
impasses, mas a extirpação do mal, da postura de não tolerar convivência com o
que se julga “o mal”. E isso se vê em várias esferas, como no debate midiático
de impunidade e fim da corrupção, por exemplo.
A fórmula puritana (quando falo em
fórmula entende-se o argumento que se formaliza em abstração, ou tipo ideal) de
olhar o fenômeno das drogas é um bom modelo: não se tolera a maconha e o álcool
pois são a porta de entrada para drogas mais pesadas. Então maconha e cocaína
se equivalem enquanto mal e devem ser extirpados da vida. Assim se vai criando
a ideia de associações onde só há vida na pureza. Por exemplo, quem fuma
maconha financia o tráfico de drogas, será um futuro usuário de cocaína, etc...
Pois bem, há no Brasil hoje uma gama
de proposições feministas (isso não é uma generalização, apenas um constatação
opinativa) que seguem a fórmula descrita acima. Da maconha ao crack, se percebe
da cantada na rua ao estupro. Todos hoje se deparam com o novo vocabulário
feminista que se insurge para imputar sentido a diversas ações cotidianas que
temos: machista, misógino, esquerdo-macho, sexista, pervertido
e por ai vai. Um olhar masculino ao corpo ou um elogio público à beleza com
conotação erótica são práticas condenadas que por não constituírem crime
fortalece o que se propõe como “cultura do estupro”.
Com isso, se alarga mais o
espaço de percepção subjetiva do assédio e também a inadmissibilidade de
convivência com qualquer forma dele existir. No mesmo sentido lógico, o careta
não distingue o usuário de maconha com o “cheirador”. É a velha ideia de cortar o mal pela raiz. Acredita-se
que precisamos cortar o mal pela raiz.
A questão da percepção subjetiva dá
pano pra manga. Na sociologia da interação dos americanos e na psicanálise da
tradição francesa o tema se mostra de difícil resolução simples. Há, antes de
conclusões certeiras, ou de ideias claras e distintas, uma zona cinzenta de
comunicação. Não existe comunicação direta na interação, mas imagens projetadas
e intenções e percepções mal entendidas de si e dos outros.
Algo que viralizou
na internet certa vez exemplifica um pouco o que tento trazer. Falo da polêmica declaração da cantora Anitta
no programa “Altas Horas”. Anitta reivindicou o modelo cultural de sedução onde
a mulher “dá mole” e o homem “chega”. Quando perguntou o que os homens iriam
achar se uma mulher cumprisse o papel de homem, sua colocação foi rechaçada por
Pitty. Na internet, Pitty acabou como heroína das mulheres que não toleram mais
o machismo dos homens. “Homens não tem que achar nada”.
Goffmam certamente acharia a fala da
Anitta muito mais sociológica que a de Pitty por aquela contemplar a ideia de
que as interações sociais são eficazes na medida em que são ritualizadas e
teatralizadas em papeis definidos, estes sempre construídos a partir da
referência mútua com outros participantes. Como diz Goffmam, você terá sucesso
com sua imagem de “eu” na medida em que se adequar às expectativas do outro que
as tem em relação com a cultura que prevalece. Ou seja, a alteridade é inerente à socialização e à sociedade.
Desde um tempo pra cá, venho notando uma guinada dos argumentos
feministas em direção a um individualismo radical, e a fala da Pitty, assim
como o tema do aborto, o denota claramente.
Há uns quinze anos, as mulheres que
defendiam o direito ao aborto, o reivindicavam muito mais pautadas em
argumentos sociais que individuais. “É um problema de saúde pública” e de “classe
social” - os dois argumentos reinavam. Eles ainda estão presentes, mas dividem
espaço hoje com o “meu corpo, minhas regras”. John Locke, uns dos fundadores do
liberalismo político, defendia o direto à propriedade como um direito natural e
lógico, pois é lógico que todos os homens são proprietários do próprio corpo.
Não concordo filosoficamente com essa frase, mas reconheço a importância moral
para a liberdade de pensamento e de ação. Minha discordância filosófica é mais
profunda e não se confunde com defender controles sociais autoritários sobre o
corpo - não somos proprietários do nosso
corpo e isso é uma ilusão da mente: dividimos eles com as bactéria,s que no fim
sempre vencem.
Devaneios filosóficos à parte, existe
um espaço subjetivo de auto-controle que vem crescendo e impondo novos
imperativos morais e legais. As evidências de que no feminismo de hoje atuam
forças culturais puritanas de fato existem. É comum ouvir mulheres dizendo que
nos países baixos a cantada na rua é proibida por lei e se dermos uma
pesquisada, veremos que Holanda e Bélgica são os países berço do calvinismo. O
atual movimento #primeiroassédio – que é também ligado à campanha do #chegadefiufiu
- é uma iniciativa de uma brasileira que ganhou protagonismo nas redes sociais
e que propõe um ativismo feminista numa linguagem bem americana, tanto que a
mesma já foi convidada pelo BID (banco interamericano de desenvolvimento) e
pelo departamento de Estado americano para juntar esforços num tipo específico
de protagonismo feminino. Na manchete que trás uma entrevista sua se lê uma
frase dela: “é preciso cortar comportamentos machistas em rodas de homens”. Mais
uma vez o mal a ser extirpado.
Para ler a entrevista:
http://projetodraft.com/e-preciso-cortar-comportamentos-machistas-em-rodas-de-homens/.
Cabe ressaltar que o BID é um banco
criado pelos EUA durante a guerra fria para financiar projetos de
desenvolvimento na América Latina com intuito de influenciar políticas na
contra mão das esquerdas.
E, também, o que me inspirou a escrever
este texto foi uma palestra da psicanalista Maria Rita Kehl, onde ela
relativizou um argumento de que as mulheres estariam dizendo mais “não” que “sim”
às abordagens machistas, retrucando que tal ofensa aos “fiu-fiu” é
típico de um feminismo americano, e que lamenta no Brasil termos herdado pouco
do feminismo francês de 68.
Conclusão:
Uma conclusão seria expor minha
opinião, porém escolho não opinar por não ter condições de avaliar se é bom ou
ruim uma influência puritana no modo como resolvemos nossos conflitos aqui no Brasil
e, em especial, os conflitos de gênero. Também não tenho absoluta certeza dos
argumentos que expus aqui e nem sou especialista no assunto. Só me permito o
exercício do debate a partir das impressões que vou tendo do mundo ao meu
redor.
A influência puritana tem lá suas vantagens,
principalmente considerando nossa lerdeza cultural em resolver esses tipos de
conflitos. Porém há de colocar que estamos deixando de pensar em soluções mais
harmonizadas com nossas tradições culturais brasileiras de aceitar boas doses de
perversões e pecados, tendo consciência de que esse seria um caminho de maior
autonomia cultural em relação à uma hegemonia americana dentro do contexto maior da globalização.
Se formos pela via puritana, nossos
modelos de erotismo, sedução e sexualidade podem ser substituídos por padrões
mais comportados, civilizados, onde não haverá mais espaço para excessos e “perversões”
(no sentido freudiano). A perversão, com Freud, é tratada não como contingente,
mas como algo necessário, já que a causa dos sintomas existentes em sociedades civilizadas se devem em grande
parte à uma sexualidade reprimida, que, quando retorna, gera sintomas,
sofrimentos, etc... Por mais que a figura do pervertido seja, na visão comum,
algo asqueroso e nojento, a perversão é um fenômeno muito mais complexo e
extirpá-lo da vida não conduz necessariamente em resolver o problema, na linha
de raciocínio freudiana.
No mais, minha intenção não é apontar
caminhos para um movimento social que é de mulheres e que sabe muito bem dos
seus acúmulos e das suas possibilidades. A forma de ativismo que hoje ganha
protagonismo no movimento tem lá suas razões de ser que são entendíveis, já que
o silêncio do debate público a respeito dos temas de abuso, assédio e estupro
não cabe mais na sociedade brasileira. A
simples aparição pública dos temas reflete a necessidade de debate. O radicalismo, de um lado, unifica o outro. Encurralar
evangélicos unifica o rebanho e aí a matemática não perdoa, já que a bancada
evangélica é maior que a representação feminina no congresso nacional, sem deixar
de notar que boa parte de nossas igrejas evangélicas foram construídas por
missionários americanos de ascendência puritana.
Então, finalmente, coloco a
impossibilidade desse tema ser resolvido ou esgotado num texto, mas acredito
ter apontado um tipo de debate que, na ânsia da defesa automática do movimento
feminista, acaba sendo deixado de lado, já que quem busca fazê-lo de uma forma
mais distanciada, corre o risco de ser visto como inimigo do movimento. Longe
disso, penso que o que me motiva a escrever é um interesse e uma busca de
compreensão mais geral que espero servir como contribuição.
O Brasil infelizmente não conta com
uma indústria cultural poderosa capaz de impor modelos de luta com a força de
outras culturas. Nossas jovens sabem mais das advogadas de sucesso que as
séries americanas apresentam do que sobre o poder sedutor de Gabriela.
Por fim, desejo a todas as mulheres
sucesso na degola de Cunha e espero que Dilma mostre a força e o protagonismo
da mulher na política brasileira.
Por Vinicius Lima Loreto