sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O brasileiro, ele não existe

Uma reflexão que me tem levado ao estudo e conversas de um tempo para cá é sobre a psicanálise no Brasil. Não acho que seja um tema fácil, e é também pouco explorado.  Talvez por isso ele me pareça inesgotável na medida em que, quanto mais penso nele, menos conclusões tiro, e mais perguntas surgem.

Mas uma conclusão já podemos tirar de imediato: tendo sido estudante de psicologia e não ter tido uma aula que fosse, ou textos que abordassem o tema da citada “terapia” e sua inserção na idiossincrática cultura brasileira já diz muito: há uma falta de interesse,  ou talvez mais que isso! Há uma ignorância geral no que se refere à prática psicanalítica no  nosso querido país Brasil.

Por exemplo, não se discute de forma situada os conceitos  básicos da teoria psicanalítica e sua relação direta com nossa cultura, nossas representações e construções identitárias; não se discute a neurose a partir de uma perspectiva baseada no nosso tipo específico de processo civilizatório.

O sociólogo Norbert Elias, fortemente influenciado por Freud, aborda a sublimação como um fenômeno intrínseco do processo civilizatório a partir do livro “A Busca da Excitação”. Elias buscou entender a sociedade inglesa do século XVIII através do estudo do esporte, colocando em relação evidente e indissociável elementos como estrutura de personalidade,  estrutura de poder e estrutura da sociedade em geral. Sendo assim, para Elias, havia uma configuração (termo utilizado para evitar a ideia de que pessoas e sociedades são substancialmente diferentes) social que estruturava um novo modelo social de conduta e sensibilidade (inclusive a forma de satisfação libidinal dos indivíduos). É importante notar que no pensamento de Elias não se explicam aspectos sociais em termos de ideias de indivíduos, mas sim de desenvolvimento social.

Se um sociólogo utilizou a teoria freudiana como uma ferramenta para a compreensão de  uma determinada sociedade, por que, aqui no Brasil, essa mesma teoria se apresenta a nós de forma substancializada, descolada da nossa estrutura de poder,  estrutura de personalidade, e estrutura social em geral?



É muito comum ouvirmos num simpósio de psicanálise mesas que viriam a discutir temas com nomes quase que misteriosos, imponentes, complexos e extremamente eruditos. Fala-se do “feminino e o não-todo-fálico”. Mas se conhece a mulher brasileira? Fala-se da “questão do valor”. Mas se sabe qual a renda salarial média do trabalhador brasileiro? Ou o que os brasileiros mais valorizam culturalmente? Fala-se sobre as “inibições, depressões, angústia”. Mas se conhece o que angustia especificamente os brasileiros? Fala-se da “arte na obra de Joyce como criação a partir do Real”. Mas se conhece Macunaíma? Por que estudamos a neurose obsessiva através de Hamlet e não através de Quincas Borba? Por que não se fala do gozo a partir de Hilda Hilst? Por que não se fala do simbólico através dos filmes de Cacá Diegues?


Ou seja, se ignora aquilo que de fato se ignora. Mas por que se ignora? Mais e mais perguntas...

Será que as teorias europeias chegam até nós automaticamente legitimadas pela sua procedência? Será que nossa relação com a teoria psicanalítica não é sintoma de uma sociedade com resquícios coloniais?

Como furar esse grande Outro colonizador para finalmente o sujeito brasileiro emergir?

É óbvio que a psicanálise é uma teoria ocidental fundamental de ser compreendida por qualquer estudante de humanas. Mas minha questão não é essa.


Será que lendo Lacan não acabamos conhecendo mais os parisienses que os cariocas?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ética Protestante e o Espírito do Novo Feminismo

Gostaria de fazer comentários extras ao texto anterior da Carmen.

É sempre muito difícil um homem escrever e dar opiniões (e publicizá-las) a respeito do debate de gênero, mais especificamente do feminismo. Feminismo é um movimento social de mulheres e ele foi, é e será, por um longo tempo ainda, um movimento social fundamental, ainda mais na sociedade brasileira, onde ele ainda tem muita estrada. 

Hoje, Eduardo Cunha se tornou um alvo desse movimento. Por causa de seu reinado na Câmara e das pautas religiosas de sua gestão as feministas querem seu pescoço na guilhotina. Esse conflito me agrada, pois o movimento feminista querer a derrubada de um presidente da câmara pode levar a uma reflexão interessante no espectro geral da problemática de gênero: a sub-representação política da mulher.

Se olharmos bem hoje, temos uma mulher na presidência da República que ganhou há um ano as eleições e não tem tido condições de implementar sua gestão ao conjunto da sociedade. Se olharmos com mais atenção ainda os que impendem que ela governe, são todos homens e seu líder maior é (TCHARAM!) Eduardo Cunha. É ele quem, na posse da câmara, cria as condições perfeitas para bloquear a iniciativa presidencial. Sendo assim nada melhor que um movimento de mulheres para pará-lo.


Porém, aaai porém, não foi o fato dele chantagear o governo liderado por uma mulher que levou as mulheres às ruas para tirá-lo de lá. O estopim se deu no momento em que a câmara resolveu endurecer na criminalização do aborto estendendo seus braços às pílulas do dia seguinte. Esse fato me chama atenção e revela como ultimamente caminha no Brasil o feminismo (aspecto mais notável nas feministas mais jovens da atual geração) : que é o feminismo e as feministas se radicalizarem em relação aos costumes.

As primeiras organizações feministas surgiram do chão da fábrica e somente mais tarde o feminismo ganha projeção na arte e na intelectualidade. Na década de 60 ele explode nos costumes e na revolução sexual. Hoje me parece, pelo convívio e debate com feministas, que a faceta dos costumes tem muito apelo nas mais jovens. De uns anos pra cá, a discussão de gênero vem tomando espaço e, quando se começa um debate, ele não pára.

Nas universidades surgem a cada dia expressões cada vez mais radicalizadas do tema, e o foco nos costumes atinge a todos. Ninguém mais fica alheio ao debate dos costumes e a conduta de homens e mulheres está cada dia mais vigiada e moralizada. Estou defendendo a tese de que esse novo feminismo expressa uma visão moral de mundo, pois estipula com clareza modos de condutas, ideais, regras e punições. O pode e não pode, o deve e não deve, o certo e o errado ganha terreno na cultura brasileira. Não sei as causas da radicalização nos costumes, e não estou preocupado aqui em achar bom ou ruim, mas a radicalização de um lado certamente acompanha a do outro. Setores religiosos, principalmente no meio evangélico também sobem o tom na vigilância moralista. Pode ser um movimento reacionário preocupado com o que vai ser da instituição família e na sua perpetuação baseada na milenar monogamia ocidental e cristã. Mas de fato seu rebanho está cada vez mais unido na missão de salvar a humanidade das pregações das “bruxas”. Aliás, alguns teóricos defendem a tese de que nossa dita civilização ocidental começa logo após a caça as bruxas na Europa.Outro fenômeno contemporâneo a esse surgimento é o da reforma protestante que acaba se desaguando naquilo que Weber tão bem falou que é o puritanismo. 

O puritanismo foi uma versão mais radical do calvinismo que surgiu na Inglaterra e que se desenvolveu mais largamente na cultura americana. Baseado na doutrina calvinista da predestinação e da vocação ao trabalho, tal doutrina defendia uma vida apegada a fé e ao trabalho sem tréguas. Promovia uma conduta moral rígida onde o homem não deveria sair da linha - era trabalhar e rezar. Em contrapartida sexo, bebida e outros prazeres passaram a ser a linguagem do diabo e o mal não seria mais tolerado - deveria então ser extirpado. Bom, para a sociedade inglesa os puritanos incomodaram muito e não é a toa que eles foram expulsos de lá. Invadiram a Nova Inglaterra e foram protagonistas na construção dos EUA. Os EUA viraram potência econômica graças em parte aos dedicados puritanos e também potência cultural, exportando sua cultura para o mundo inteiro.

A grande contribuição intelectual de Max Weber foi mostrar que a grande herança do puritanismo na cultura mundial não estaria nos conteúdos religiosos neles mesmos, mas em uma forma, ou tipo de conduta de vida. Melhor dizendo, saiu a fé cristã na salvação e ficou uma conduta diária de não tolerar desvios quaisquer que sejam na moralidade assumida. Bem diferentes foram nossas matrizes culturais Ibéricas e católicas do perdão e da convivência mais compreensiva com os pecados e perversões. Como se vê, já virou caricatura a malandragem, o jeitinho, a preguiça, as mulheres nuas no carnaval, o falso moralismo etc. E, por mais que seja grave quem diga que não há racismo no Brasil, de certo houve mais tolerância com as práticas culturais dos negros,  algo mais fácil de notar, já que a musicalidade negra brasileira surgiu do terreiro e nos EUA da música gospel. Aqui divindades africanas sobreviveram na linguagem dos santos enquanto que nos EUA só poderiam ser simbolizados na figura do diabo.  Isso tudo, porém, não significa que a solução daqui é melhor que as de lá. No Brasil, quando as coisas avançam ou mudam é sempre muito lento. Enquanto os países vizinhos criavam repúblicas, o filho do rei de Portugal bradava independência como imperador. Fomos o último país a abolir a escravidão e criamos uma nação rica, mas muitíssima desigual. A lentidão irrita os que querem se ver livres das injustiças que julgam inaceitáveis. Porém, nota-se que a lentidão continua como via.

E o que tudo isso tem a ver com o feminismo? Acho que não é algo que se restringe ao feminismo, mas tenho uma percepção - ainda não muito bem construída - de que o debate público brasileiro, em várias esferas, tem sido tomado de performances puritanas . E as causas? Seria a hegemonia cultural americana? Ou a eficácia do modelo na resolução dos conflitos? Se existem radicalizações e reações, elas são eivadas de puritanismo. As tônicas dos debates hoje não são uma gradual resolução de impasses, mas a extirpação do mal, da postura de não tolerar convivência com o que se julga “o mal”. E isso se vê em várias esferas, como no debate midiático de impunidade e fim da corrupção, por exemplo.

A fórmula puritana (quando falo em fórmula entende-se o argumento que se formaliza em abstração, ou tipo ideal) de olhar o fenômeno das drogas é um bom modelo: não se tolera a maconha e o álcool pois são a porta de entrada para drogas mais pesadas. Então maconha e cocaína se equivalem enquanto mal e devem ser extirpados da vida. Assim se vai criando a ideia de associações onde só há vida na pureza. Por exemplo, quem fuma maconha financia o tráfico de drogas, será um futuro usuário de cocaína, etc...  

Pois bem, há no Brasil hoje uma gama de proposições feministas (isso não é uma generalização, apenas um constatação opinativa) que seguem a fórmula descrita acima. Da maconha ao crack, se percebe da cantada na rua ao estupro. Todos hoje se deparam com o novo vocabulário feminista que se insurge para imputar sentido a diversas ações cotidianas que temos: machista, misógino, esquerdo-macho, sexista, pervertido e por ai vai. Um olhar masculino ao corpo ou um elogio público à beleza com conotação erótica são práticas condenadas que por não constituírem crime fortalece o que se propõe como “cultura do estupro”. 

Com isso, se alarga mais o espaço de percepção subjetiva do assédio e também a inadmissibilidade de convivência com qualquer forma dele existir. No mesmo sentido lógico, o careta não distingue o usuário de maconha com o “cheirador”.  É a velha ideia de cortar o mal pela raiz. Acredita-se que precisamos cortar o mal pela raiz.

A questão da percepção subjetiva dá pano pra manga. Na sociologia da interação dos americanos e na psicanálise da tradição francesa o tema se mostra de difícil resolução simples. Há, antes de conclusões certeiras, ou de ideias claras e distintas, uma zona cinzenta de comunicação. Não existe comunicação direta na interação, mas imagens projetadas e intenções e percepções mal entendidas de si e dos outros. 

Algo que viralizou na internet certa vez exemplifica um pouco o que tento trazer.  Falo da polêmica declaração da cantora Anitta no programa “Altas Horas”. Anitta reivindicou o modelo cultural de sedução onde a mulher “dá mole” e o homem “chega”. Quando perguntou o que os homens iriam achar se uma mulher cumprisse o papel de homem, sua colocação foi rechaçada por Pitty. Na internet, Pitty acabou como heroína das mulheres que não toleram mais o machismo dos homens. “Homens não tem que achar nada”.

Goffmam certamente acharia a fala da Anitta muito mais sociológica que a de Pitty por aquela contemplar a ideia de que as interações sociais são eficazes na medida em que são ritualizadas e teatralizadas em papeis definidos, estes sempre construídos a partir da referência mútua com outros participantes. Como diz Goffmam, você terá sucesso com sua imagem de “eu” na medida em que se adequar às expectativas do outro que as tem em relação com a cultura que prevalece. Ou seja, a alteridade é inerente à socialização e à sociedade.

Desde um tempo pra cá,  venho notando uma guinada dos argumentos feministas em direção a um individualismo radical, e a fala da Pitty, assim como o tema do aborto, o denota claramente.
Há uns quinze anos, as mulheres que defendiam o direito ao aborto, o reivindicavam muito mais pautadas em argumentos sociais que individuais. “É um problema de saúde pública” e de “classe social” - os dois argumentos reinavam. Eles ainda estão presentes, mas dividem espaço hoje com o “meu corpo, minhas regras”. John Locke, uns dos fundadores do liberalismo político, defendia o direto à propriedade como um direito natural e lógico, pois é lógico que todos os homens são proprietários do próprio corpo. 

Não concordo filosoficamente com essa frase, mas reconheço a importância moral para a liberdade de pensamento e de ação. Minha discordância filosófica é mais profunda e não se confunde com defender controles sociais autoritários sobre o corpo -  não somos proprietários do nosso corpo e isso é uma ilusão da mente: dividimos eles com as bactéria,s que no fim sempre vencem.

Devaneios filosóficos à parte, existe um espaço subjetivo de auto-controle que vem crescendo e impondo novos imperativos morais e legais. As evidências de que no feminismo de hoje atuam forças culturais puritanas de fato existem. É comum ouvir mulheres dizendo que nos países baixos a cantada na rua é proibida por lei e se dermos uma pesquisada, veremos que Holanda e Bélgica são os países berço do calvinismo. O atual movimento #primeiroassédio – que é também ligado à campanha do #chegadefiufiu - é uma iniciativa de uma brasileira que ganhou protagonismo nas redes sociais e que propõe um ativismo feminista numa linguagem bem americana, tanto que a mesma já foi convidada pelo BID (banco interamericano de desenvolvimento) e pelo departamento de Estado americano para juntar esforços num tipo específico de protagonismo feminino. Na manchete que trás uma entrevista sua se lê uma frase dela: “é preciso cortar comportamentos machistas em rodas de homens”. Mais uma vez o mal a ser extirpado.

Para ler a entrevista:
http://projetodraft.com/e-preciso-cortar-comportamentos-machistas-em-rodas-de-homens/.

Cabe ressaltar que o BID é um banco criado pelos EUA durante a guerra fria para financiar projetos de desenvolvimento na América Latina com intuito de influenciar políticas na contra mão das esquerdas.

E, também, o que me inspirou a escrever este texto foi uma palestra da psicanalista Maria Rita Kehl, onde ela relativizou um argumento de que as mulheres estariam dizendo mais “não” que “sim” às abordagens machistas, retrucando que tal ofensa aos “fiu-fiu” é típico de um feminismo americano, e que lamenta no Brasil termos herdado pouco do feminismo francês de 68.

Para quem quiser ver, o vídeo está disponível no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=d9zvtW4UTz8

Conclusão:

Uma conclusão seria expor minha opinião, porém escolho não opinar por não ter condições de avaliar se é bom ou ruim uma influência puritana no modo como resolvemos nossos conflitos aqui no Brasil e, em especial, os conflitos de gênero. Também não tenho absoluta certeza dos argumentos que expus aqui e nem sou especialista no assunto. Só me permito o exercício do debate a partir das impressões que vou tendo do mundo ao meu redor.

A influência puritana tem lá suas vantagens, principalmente considerando nossa lerdeza cultural em resolver esses tipos de conflitos. Porém há de colocar que estamos deixando de pensar em soluções mais harmonizadas com nossas tradições culturais brasileiras de aceitar boas doses de perversões e pecados, tendo consciência de que esse seria um caminho de maior autonomia cultural em relação à uma hegemonia americana dentro do contexto maior da  globalização.

Se formos pela via puritana, nossos modelos de erotismo, sedução e sexualidade podem ser substituídos por padrões mais comportados, civilizados, onde não haverá mais espaço para excessos e “perversões” (no sentido freudiano). A perversão, com Freud, é tratada não como contingente, mas como algo necessário, já que a causa dos sintomas existentes em sociedades civilizadas se devem em grande parte à uma sexualidade reprimida, que, quando retorna, gera sintomas, sofrimentos, etc... Por mais que a figura do pervertido seja, na visão comum, algo asqueroso e nojento, a perversão é um fenômeno muito mais complexo e extirpá-lo da vida não conduz necessariamente em resolver o problema, na linha de raciocínio freudiana.

No mais, minha intenção não é apontar caminhos para um movimento social que é de mulheres e que sabe muito bem dos seus acúmulos e das suas possibilidades. A forma de ativismo que hoje ganha protagonismo no movimento tem lá suas razões de ser que são entendíveis, já que o silêncio do debate público a respeito dos temas de abuso, assédio e estupro não cabe mais na sociedade brasileira.  A simples aparição pública dos temas reflete a necessidade de debate.  O radicalismo, de um lado, unifica o outro. Encurralar evangélicos unifica o rebanho e aí a matemática não perdoa, já que a bancada evangélica é maior que a representação feminina no congresso nacional, sem deixar de notar que boa parte de nossas igrejas evangélicas foram construídas por missionários americanos de ascendência puritana.

Então, finalmente, coloco a impossibilidade desse tema ser resolvido ou esgotado num texto, mas acredito ter apontado um tipo de debate que, na ânsia da defesa automática do movimento feminista, acaba sendo deixado de lado, já que quem busca fazê-lo de uma forma mais distanciada, corre o risco de ser visto como inimigo do movimento. Longe disso, penso que o que me motiva a escrever é um interesse e uma busca de compreensão mais geral que espero servir como contribuição.

O Brasil infelizmente não conta com uma indústria cultural poderosa capaz de impor modelos de luta com a força de outras culturas. Nossas jovens sabem mais das advogadas de sucesso que as séries americanas apresentam do que sobre o poder sedutor de Gabriela.

Por fim, desejo a todas as mulheres sucesso na degola de Cunha e espero que Dilma mostre a força e o protagonismo da mulher na política brasileira.

Por Vinicius Lima Loreto














sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Reflexões sobre o assédio sexual

     No início do século XX, Sigmund Freud, um dos inventores do que se conhece hoje como psicanálise, buscava entender em Viena o sofrimento das mulheres e como se formavam seus sintomas.
     Freud era um psiquiatra, mas ouvindo as mulheres de sua época, e inclusive considerando o que elas reivindicavam para si como um tratamento, acabou buscando uma outra forma de compreender e curar o sofrimento de suas pacientes: as escutando.
     Nessa empreitada, havia um desafio para Freud. Quase todas as mulheres que ele ouvia relatavam assédios sexuais na infância. Esses relatos trazem uma questão ao consagrado psicanalista. Em setembro de 1897, escreve na Carta 69: "Já não acredito mais na minha neurótica" (p.301).
     Freud passou a entender os relatos de assédio numa outra dimensão: na dimensão da realidade psíquica, uma vez que, para ele, ou chegava a admitir que todos os pais de Viena eram pervertidos, ou que havia algo de peculiar na relação das crianças, principalmente meninas, com seus cuidadores mais próximos. Algo como uma sedução precoce. 
     Sendo assim,Freud abandona a teoria da sedução quando descobre que as cenas de sedução são algumas vezes o produto de reconstruções fantasmáticas, descoberta que ocorre paralelamente ao desvelamento progressivo da sexualidade infantil [...]. Mais adiante, a sedução é atribuída a um fantasma retroativo, a um período precoce e imputada a um personagem parental” (CALVI,1999). 
     Ou seja, para Freud a questão do assédio o trouxe a uma questão subjetiva, uma contribuição para pensar a sexualidade infantil – um tabu nessa época vienense.
     Pois bem, sei que o leitor não deve estar se contendo de perguntas como “então Freud quis dizer que assédio não existe?”, ou “Freud quis retirar uma questão de sua raiz social e tratá-la como individual?”, ou ainda, “Freud então estava deslegitimando a fala das mulheres, dizendo que os assédios eram coisas de sua cabeça?”
     Concordo com todas essas questões no seu aspecto provocativo, que contribui para o que venho pensando sobre a campanha #meuprimeiroassédio. Essa campanha e o comportamento de mulheres engajadas em movimentos feministas, ou em ideias de libertação feminina no que circunscrevo dentro dos relatos de assédios sofridos, me é uma grande questão e considero o cuidado com que ela deva ser tratada para não ser reduzida a uma questão psíquica,subjetiva, individual, ou a partir de um ponto de vista que ignore as práticas de dominação, de visão e divisão do gênero feminino e suas consequências no reconhecimento das mulheres no mundo social. Há de fato um comportamento social que produz traumas, sofrimento, senão violência física real no corpo das mulheres brasileiras e não é a toa que muitas mulheres estão buscando soltar a voz e relatar uma violência vivida.
     Mas o que tem o senhor Freud vienense do século passado a ver com o que tem acontecido nas redes sociais brasileiras nos últimos meses?
     Eu acho que há uma diferença que pode ser notada, e que talvez Freud a ajude a compreender.
     Quando vemos um relato de estupro, não há dúvida de que isso foi uma violência física. Porém, misturados a esses relatos há também os que relatam histórias, por exemplo, sobre ter que esconder seu corpo para  evitar olhares; outros de um suposto assédio que iria acontecer se a possível vítima não tivesse saído do local, e por aí vai.  Temos então de um lado violências "reais"com efeitos no corpo, e de outro, "possíveis assédios".
    Escolhi Freud pois ele contribui para o debate na medida em que ele aborda o tema da realidade psíquica, ou seja, ele afirma que as fantasias fazem parte decisiva na construção da nossa realidade mais objetiva. Por exemplo: hoje passei por uma senhora vizinha na rua e quando a cumprimentei, ela virou o rosto e continuou a andar. A pessoa ao meu lado que me acompanhava disse que ela devia estar rancorosa em relação a mim, enquanto que, para mim, ela não havia  me reconhecido.
     O que quero dizer com isso? Que as mulheres imaginam serem assediadas quando não o são?
     Talvez em alguns casos dentro dos “possíveis assédios”, na medida em que muitas vezes não há como saber o que o outro de fato está buscando a partir de um gesto a não ser, obviamente, que ele seja explícito. 
     Mas longe de buscar ser relativista, ou de deslegitimar o sentimento das mulheres em relação a algo que realmente existe - que é seu lugar de objeto em relação ao desejo do homem – escrevo este texto com um objetivo muito distinto.
     Busco considerar Freud como uma pessoa que contribui para pensar na possibilidade de um outro tipo de atitude em relação aos casos de “possível assédio”. Por exemplo, o que se tem dito como proposta de ação nesses casos é “não duvidar” de que se está sendo agredida. Será que “não duvidar” levaria algum ganho às mulheres? Não duvidar significaria se proteger efetivamente do assédio?
     “Não duvidar” traz questões, na medida em que no estudo da sociedade, como bem esclarece Max Weber, o princípio de causalidade é contingente e fortuito. O que nas ciências exatas se entenderia por A->B, onde A é necessariamente acompanhado pelo fenômeno B, nas ciências sociais A não gera B necessariamente, uma vez que B depende da interpretação que alguém faz de A.
     Isso se aproxima com o que o senhor Freud estava tentando compreender. Há uma participação nossa na construção da nossa realidade. “Não duvidar” pode cair no perigo de se buscar em relação aos “possíveis assédios” uma reação radical, condicionada, de automaticamente culpabilizar e denunciar o outro por algo ocorrido entre duas pessoas, e não apenas uma.
     Mais uma vez, me esforço para não cair na interpretação de que defendo que a mulher se cale. Longe disso, que ela busque se proteger, se defender, ou “fazer um escândalo”, seja como for, mas sempre levando em conta a diferença entre violência efetiva (estupro ou outro tipo de assédio que cause lesão no corpo) e “possível assédio” (um suposto olhar, um gesto enigmático e por aí vai).
      Estou aqui considerando a hipótese de que “não duvidar” é uma ação anti-social, na medida em que a dúvida é intrísceca ao ser social, e como Freud busca demonstrar, a fantasia participa de nossa realidade cotidiana. E o mais importante: é necessário que as mulheres possam mostrar que são coerentes com o que defendem, e ganharem lugar na sociedade. “Não duvidar” pode levar as mulheres a não se beneficiarem inclusive das leis que a protegem do assédio, já que “não duvidar” pode alargar tanto o conceito do que é estupro, por exemplo, que pela banalização do termo o estupro efetivo perca a seriedade necessária no seu julgamento e proteção da vítima.
     Não me convenci de meus argumentos totalmente - as dúvidas ainda pairam. Essa é apenas uma reflexão que toma por base uma busca de melhor defender as ideias feministas dentro de uma perspectiva psicanalítica, sociológica, e dentro de uma estratégia política que gere efeitos benéficos às mulheres brasileiras.

     Finalizo ressaltando que meu objetivo não é uma luta engajada, mas uma ponderação sobre a luta a partir de questões honestas, ou seja, de uma dúvida em relação ao tema.


Referências bibliográficas:

CALVI, Bettina. A problemática do abuso sexual infantil em psicanálise: o silêncio das mulheres. Estilos clin. [online]. 1999, vol.4, n.6 [citado  2015-10-30], pp. 64-71 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71281999000100006&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1415-7128.

Sobre Jeca Total

Quem é o Jeca Total?
Jeca Total é o brasileiro esquecido que vive num lugar esquecido.
Mas é o ser na terra do porvir.
É a tentativa de decifrar o Brasil que está acontecendo.
O Jeca Total não é importante, mas ele sabe que seu país é um enigma e quer decifrá-lo.
Ele quer uma visão de totalidade.
O Jeca busca ser Total.
E o Total está em Jeca, porque ele não é nada mas é tudo. Ele é potência, Brasil-potência, vir-a-ser o que de algum forma já é.
Ele é o paradoxo do Brasil.
O Jeca Total não quer protestar, mudar o mundo. Isso é muito pretensioso. Isso é de quem quer ser importante.
Ele quer entendê-lo, porque ele se surpreende.
E o que surpreende é para ser entendido na totalidade da simplicidade de quem observa os outros passarem na rua enquanto mastiga seu matinho.