sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Reflexões sobre o assédio sexual

     No início do século XX, Sigmund Freud, um dos inventores do que se conhece hoje como psicanálise, buscava entender em Viena o sofrimento das mulheres e como se formavam seus sintomas.
     Freud era um psiquiatra, mas ouvindo as mulheres de sua época, e inclusive considerando o que elas reivindicavam para si como um tratamento, acabou buscando uma outra forma de compreender e curar o sofrimento de suas pacientes: as escutando.
     Nessa empreitada, havia um desafio para Freud. Quase todas as mulheres que ele ouvia relatavam assédios sexuais na infância. Esses relatos trazem uma questão ao consagrado psicanalista. Em setembro de 1897, escreve na Carta 69: "Já não acredito mais na minha neurótica" (p.301).
     Freud passou a entender os relatos de assédio numa outra dimensão: na dimensão da realidade psíquica, uma vez que, para ele, ou chegava a admitir que todos os pais de Viena eram pervertidos, ou que havia algo de peculiar na relação das crianças, principalmente meninas, com seus cuidadores mais próximos. Algo como uma sedução precoce. 
     Sendo assim,Freud abandona a teoria da sedução quando descobre que as cenas de sedução são algumas vezes o produto de reconstruções fantasmáticas, descoberta que ocorre paralelamente ao desvelamento progressivo da sexualidade infantil [...]. Mais adiante, a sedução é atribuída a um fantasma retroativo, a um período precoce e imputada a um personagem parental” (CALVI,1999). 
     Ou seja, para Freud a questão do assédio o trouxe a uma questão subjetiva, uma contribuição para pensar a sexualidade infantil – um tabu nessa época vienense.
     Pois bem, sei que o leitor não deve estar se contendo de perguntas como “então Freud quis dizer que assédio não existe?”, ou “Freud quis retirar uma questão de sua raiz social e tratá-la como individual?”, ou ainda, “Freud então estava deslegitimando a fala das mulheres, dizendo que os assédios eram coisas de sua cabeça?”
     Concordo com todas essas questões no seu aspecto provocativo, que contribui para o que venho pensando sobre a campanha #meuprimeiroassédio. Essa campanha e o comportamento de mulheres engajadas em movimentos feministas, ou em ideias de libertação feminina no que circunscrevo dentro dos relatos de assédios sofridos, me é uma grande questão e considero o cuidado com que ela deva ser tratada para não ser reduzida a uma questão psíquica,subjetiva, individual, ou a partir de um ponto de vista que ignore as práticas de dominação, de visão e divisão do gênero feminino e suas consequências no reconhecimento das mulheres no mundo social. Há de fato um comportamento social que produz traumas, sofrimento, senão violência física real no corpo das mulheres brasileiras e não é a toa que muitas mulheres estão buscando soltar a voz e relatar uma violência vivida.
     Mas o que tem o senhor Freud vienense do século passado a ver com o que tem acontecido nas redes sociais brasileiras nos últimos meses?
     Eu acho que há uma diferença que pode ser notada, e que talvez Freud a ajude a compreender.
     Quando vemos um relato de estupro, não há dúvida de que isso foi uma violência física. Porém, misturados a esses relatos há também os que relatam histórias, por exemplo, sobre ter que esconder seu corpo para  evitar olhares; outros de um suposto assédio que iria acontecer se a possível vítima não tivesse saído do local, e por aí vai.  Temos então de um lado violências "reais"com efeitos no corpo, e de outro, "possíveis assédios".
    Escolhi Freud pois ele contribui para o debate na medida em que ele aborda o tema da realidade psíquica, ou seja, ele afirma que as fantasias fazem parte decisiva na construção da nossa realidade mais objetiva. Por exemplo: hoje passei por uma senhora vizinha na rua e quando a cumprimentei, ela virou o rosto e continuou a andar. A pessoa ao meu lado que me acompanhava disse que ela devia estar rancorosa em relação a mim, enquanto que, para mim, ela não havia  me reconhecido.
     O que quero dizer com isso? Que as mulheres imaginam serem assediadas quando não o são?
     Talvez em alguns casos dentro dos “possíveis assédios”, na medida em que muitas vezes não há como saber o que o outro de fato está buscando a partir de um gesto a não ser, obviamente, que ele seja explícito. 
     Mas longe de buscar ser relativista, ou de deslegitimar o sentimento das mulheres em relação a algo que realmente existe - que é seu lugar de objeto em relação ao desejo do homem – escrevo este texto com um objetivo muito distinto.
     Busco considerar Freud como uma pessoa que contribui para pensar na possibilidade de um outro tipo de atitude em relação aos casos de “possível assédio”. Por exemplo, o que se tem dito como proposta de ação nesses casos é “não duvidar” de que se está sendo agredida. Será que “não duvidar” levaria algum ganho às mulheres? Não duvidar significaria se proteger efetivamente do assédio?
     “Não duvidar” traz questões, na medida em que no estudo da sociedade, como bem esclarece Max Weber, o princípio de causalidade é contingente e fortuito. O que nas ciências exatas se entenderia por A->B, onde A é necessariamente acompanhado pelo fenômeno B, nas ciências sociais A não gera B necessariamente, uma vez que B depende da interpretação que alguém faz de A.
     Isso se aproxima com o que o senhor Freud estava tentando compreender. Há uma participação nossa na construção da nossa realidade. “Não duvidar” pode cair no perigo de se buscar em relação aos “possíveis assédios” uma reação radical, condicionada, de automaticamente culpabilizar e denunciar o outro por algo ocorrido entre duas pessoas, e não apenas uma.
     Mais uma vez, me esforço para não cair na interpretação de que defendo que a mulher se cale. Longe disso, que ela busque se proteger, se defender, ou “fazer um escândalo”, seja como for, mas sempre levando em conta a diferença entre violência efetiva (estupro ou outro tipo de assédio que cause lesão no corpo) e “possível assédio” (um suposto olhar, um gesto enigmático e por aí vai).
      Estou aqui considerando a hipótese de que “não duvidar” é uma ação anti-social, na medida em que a dúvida é intrísceca ao ser social, e como Freud busca demonstrar, a fantasia participa de nossa realidade cotidiana. E o mais importante: é necessário que as mulheres possam mostrar que são coerentes com o que defendem, e ganharem lugar na sociedade. “Não duvidar” pode levar as mulheres a não se beneficiarem inclusive das leis que a protegem do assédio, já que “não duvidar” pode alargar tanto o conceito do que é estupro, por exemplo, que pela banalização do termo o estupro efetivo perca a seriedade necessária no seu julgamento e proteção da vítima.
     Não me convenci de meus argumentos totalmente - as dúvidas ainda pairam. Essa é apenas uma reflexão que toma por base uma busca de melhor defender as ideias feministas dentro de uma perspectiva psicanalítica, sociológica, e dentro de uma estratégia política que gere efeitos benéficos às mulheres brasileiras.

     Finalizo ressaltando que meu objetivo não é uma luta engajada, mas uma ponderação sobre a luta a partir de questões honestas, ou seja, de uma dúvida em relação ao tema.


Referências bibliográficas:

CALVI, Bettina. A problemática do abuso sexual infantil em psicanálise: o silêncio das mulheres. Estilos clin. [online]. 1999, vol.4, n.6 [citado  2015-10-30], pp. 64-71 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71281999000100006&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1415-7128.

Sobre Jeca Total

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Jeca Total é o brasileiro esquecido que vive num lugar esquecido.
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