No início do século XX, Sigmund Freud, um dos
inventores do que se conhece hoje como psicanálise, buscava entender em Viena o
sofrimento das mulheres e como se formavam seus sintomas.
Freud era um psiquiatra, mas ouvindo as mulheres de
sua época, e inclusive considerando o que elas reivindicavam para si como um
tratamento, acabou buscando uma outra forma de compreender e curar o sofrimento
de suas pacientes: as escutando.
Nessa empreitada, havia um desafio para Freud. Quase
todas as mulheres que ele ouvia relatavam assédios sexuais na infância. Esses
relatos trazem uma questão ao consagrado psicanalista. Em setembro de 1897, escreve na Carta 69: "Já não
acredito mais na minha neurótica" (p.301).
Freud passou a entender
os relatos de assédio numa outra dimensão: na dimensão da realidade psíquica,
uma vez que, para ele, ou chegava a admitir que todos os pais de Viena eram
pervertidos, ou que havia algo de peculiar na relação das crianças,
principalmente meninas, com seus cuidadores mais próximos. Algo como uma
sedução precoce.
Sendo assim,“Freud abandona a teoria da sedução quando descobre que as cenas de sedução são algumas vezes o produto de reconstruções fantasmáticas, descoberta que ocorre paralelamente ao desvelamento progressivo da sexualidade infantil [...]. Mais adiante, a sedução é atribuída a um fantasma retroativo, a um período precoce e imputada a um personagem parental” (CALVI,1999).
Sendo assim,“Freud abandona a teoria da sedução quando descobre que as cenas de sedução são algumas vezes o produto de reconstruções fantasmáticas, descoberta que ocorre paralelamente ao desvelamento progressivo da sexualidade infantil [...]. Mais adiante, a sedução é atribuída a um fantasma retroativo, a um período precoce e imputada a um personagem parental” (CALVI,1999).
Ou seja, para Freud a
questão do assédio o trouxe a uma questão subjetiva, uma contribuição para pensar
a sexualidade infantil – um tabu nessa época vienense.
Pois bem, sei que o
leitor não deve estar se contendo de perguntas como “então Freud quis dizer que
assédio não existe?”, ou “Freud quis retirar uma questão de sua raiz social e
tratá-la como individual?”, ou ainda, “Freud então estava deslegitimando a fala
das mulheres, dizendo que os assédios eram coisas de sua cabeça?”
Concordo com todas
essas questões no seu aspecto provocativo, que contribui para o que venho
pensando sobre a campanha #meuprimeiroassédio. Essa campanha e o
comportamento de mulheres engajadas em movimentos feministas, ou em ideias de
libertação feminina no que circunscrevo dentro dos relatos de assédios
sofridos, me é uma grande questão e considero o cuidado com que ela deva ser tratada para não ser reduzida a uma questão psíquica,subjetiva, individual, ou a partir de um ponto de vista que ignore as práticas de dominação, de visão e divisão do gênero feminino e suas consequências no reconhecimento das mulheres no mundo social. Há de fato um
comportamento social que produz traumas, sofrimento, senão violência física
real no corpo das mulheres brasileiras e não é a toa que muitas mulheres estão
buscando soltar a voz e relatar uma violência vivida.
Mas o que tem o senhor
Freud vienense do século passado a ver com o que tem acontecido nas redes
sociais brasileiras nos últimos meses?
Eu acho que há uma
diferença que pode ser notada, e que talvez Freud a ajude a compreender.
Quando vemos um relato
de estupro, não há dúvida de que isso foi uma violência física. Porém,
misturados a esses relatos há também os que relatam histórias, por exemplo, sobre
ter que esconder seu corpo para evitar
olhares; outros de um suposto assédio que iria acontecer se a possível vítima
não tivesse saído do local, e por aí vai. Temos então de um lado violências "reais"com efeitos no corpo, e de outro, "possíveis assédios".
Escolhi Freud pois ele contribui para o debate na medida em que ele aborda o tema da realidade psíquica, ou seja, ele afirma que as fantasias fazem parte decisiva na construção da nossa realidade mais objetiva. Por exemplo: hoje
passei por uma senhora vizinha na rua e quando a cumprimentei, ela virou o
rosto e continuou a andar. A pessoa ao meu lado que me acompanhava disse que ela devia
estar rancorosa em relação a mim, enquanto que, para mim, ela não havia me reconhecido.
O que quero dizer com
isso? Que as mulheres imaginam serem assediadas quando não o são?
Talvez em alguns casos
dentro dos “possíveis assédios”, na medida em que muitas vezes não há como saber o que o outro de fato está buscando a partir de um gesto a não ser, obviamente, que ele seja explícito.
Mas longe de buscar ser
relativista, ou de deslegitimar o sentimento das mulheres em relação a algo que
realmente existe - que é seu lugar de objeto em relação ao desejo do homem –
escrevo este texto com um objetivo muito distinto.
Busco considerar Freud
como uma pessoa que contribui para pensar na possibilidade de um outro tipo de atitude em relação
aos casos de “possível assédio”. Por exemplo, o que se tem dito como proposta
de ação nesses casos é “não duvidar” de que se está sendo agredida. Será que “não
duvidar” levaria algum ganho às mulheres? Não duvidar significaria se proteger
efetivamente do assédio?
“Não duvidar” traz
questões, na medida em que no estudo da sociedade, como bem esclarece Max
Weber, o princípio de causalidade é contingente e fortuito. O que nas ciências exatas
se entenderia por A->B, onde A é necessariamente acompanhado pelo fenômeno
B, nas ciências sociais A não gera B necessariamente, uma vez que B depende da
interpretação que alguém faz de A.
Isso se aproxima com o
que o senhor Freud estava tentando compreender. Há uma participação nossa na
construção da nossa realidade. “Não duvidar” pode cair no perigo de se buscar
em relação aos “possíveis assédios” uma reação radical, condicionada, de automaticamente
culpabilizar e denunciar o outro por algo ocorrido entre duas pessoas, e não
apenas uma.
Mais uma vez, me
esforço para não cair na interpretação de que defendo que a mulher se cale.
Longe disso, que ela busque se proteger, se defender, ou “fazer um escândalo”,
seja como for, mas sempre levando em conta a diferença entre violência efetiva
(estupro ou outro tipo de assédio que cause lesão no corpo) e “possível assédio”
(um suposto olhar, um gesto enigmático e por aí vai).
Estou aqui considerando a hipótese de que “não
duvidar” é uma ação anti-social, na medida em que a dúvida é intrísceca ao ser social, e como
Freud busca demonstrar, a fantasia participa de nossa realidade cotidiana. E o
mais importante: é necessário que as mulheres possam mostrar que são coerentes
com o que defendem, e ganharem lugar na sociedade. “Não duvidar” pode levar as
mulheres a não se beneficiarem inclusive das leis que a protegem do assédio, já
que “não duvidar” pode alargar tanto o conceito do que é estupro, por exemplo,
que pela banalização do termo o estupro efetivo perca a seriedade necessária no
seu julgamento e proteção da vítima.
Não me convenci de meus
argumentos totalmente - as dúvidas ainda pairam. Essa é apenas uma reflexão que
toma por base uma busca de melhor defender as ideias feministas dentro de uma
perspectiva psicanalítica, sociológica, e dentro de uma estratégia política que
gere efeitos benéficos às mulheres brasileiras.
Finalizo ressaltando
que meu objetivo não é uma luta engajada, mas uma ponderação sobre a luta a
partir de questões honestas, ou seja, de uma dúvida em relação ao tema.
Referências
bibliográficas:
CALVI, Bettina. A problemática do abuso sexual
infantil em psicanálise: o silêncio das mulheres. Estilos clin. [online]. 1999, vol.4, n.6
[citado 2015-10-30], pp. 64-71 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71281999000100006&lng=pt&nrm=iso>.
ISSN 1415-7128.
